Os segredos de 1968
Zuenir Ventura, 77, é jornalista, professor universitário e escritor. O autor do livro “1968, o ano que não terminou” que inspirou a minissérie Anos Rebeldes, produzida pela TV Globo, é o grande responsável pela reconstituição desse período da história
Uma obra relativamente curta, se levarmos em conta os ocorridos. De linguagem simples e clara. Mas com um pequeno problema. Para se entender alguns acontecimentos é necessário ter conhecimento da vida de alguns personagens. No geral, a obra tem grandes revelações e ótimas tramas.
O livro começa com duas páginas inteiras de agradecimentos. Consta também com o registro da importância do jornalismo de reconstrução, gênero no qual ele inclui a obra. Ao fim destas, ele explica a razão do livro sair sem prefácio e faz sua dedicatória: “A Hélio, um homem aberto com quem eu fecho”. Na introdução do documento literário, Ventura expõe vários pontos de vista de diversas pessoas e instituições a respeito do ano de 1968. Ainda na introdução, faz um breve resumo do que aconteceu no mundo e mostra como foi produzido todo o material de leitura. O livro, de quatro partes, tem várias histórias, divididas em capítulos, e cada um com protagonistas diferentes.
Na primeira parte, o réveillon promovido pelo casal Luís-Heloísa Buarque de Hollanda foi o início. A festa, o lugar, as pessoas e o momento foram detalhados e narrados da melhor maneira possível. O autor também usa novos relatos para comentar a revolução sexual, as transformações de costumes e comportamento que começavam a surgir de forma avassaladora. O uso de drogas é um dos temas. O Poder Jovem do Brasil é comparado aos movimentos que ocorriam também, na França. A juventude literária da época, que se modifica juntamente com a mídia, é discutida de forma pessimista. A “revolução verbal” se tornou real. Os palavrões deixaram de ser incomuns. Aquela seria a última geração literária. Zuenir ainda trata da imprensa, dos movimentos e pensamentos radicais dos jovens, de suas atitudes e suas preocupações com a resposta dos militares.
A segunda parte coloca as contradições entre a arte e a política. Para aqueles que são fãs de Chico Buarque, não custa nada dar uma lida especial no primeiro capítulo da parte II. O teatro e a música se destacam no cenário artístico de 68. São citadas as agitações estudantis no Brasil inteiro, a perseguição ao líder estudantil Honestino Guimarães, em Brasília, e as brigas no Rio de Janeiro, tendo como conseqüência a morte do estudante Edson Luís. As reações do governo e as respostas do exército e da polícia não ficam de fora dos fatos narrados. A censura à imprensa também é lembrada. A sexta-feira sangrenta e, principalmente, as Passeatas dos 100 mil foram muito bem detalhadas. Por meio de relatos de pessoas importantes do cenário atual, que participaram na época, podemos imaginar as ações quase perfeitamente. O jornalista aponta que a CIA que estava indiretamente ligada às investigações dos movimentos de oposição, definindo o seu papel na situação crítica apresentada.
Na parte III, novamente, é citada a invasão e ocupação militar da UnB. O clima palaciano, de delação e desconfiança, daquele momento, foi divulgado. Graças às conversas confidenciais entre os líderes militares. Nesta parte, aqueles que sempre quiseram saber a importância de Caetano Veloso e Gilberto Gil para o período, devem ler com mais atenção, pois é caracterizada a revolta do povo com esses durante o III Festival Internacional da Canção. Vem à tona também uma história de grande interesse e maldade, na qual um capitão é visto anos depois como um herói por evitar um ato terrorista do Estado. A batalha entre os estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, também teve grande repercussão, e não poderia estar de fora dos fatos narrados. Outra história presente nesta parte do livro é a do XXX Congresso do UNE que seria realizado no interior de São Paulo num sítio. José Dirceu era um dos líderes do movimento na época.
Por fim, a parte IV trata de todos os acontecimentos na prévia. Isto é, o que de fato foi crucial para a imposição do AI-5, e o que aconteceu depois.
VENTURA, Zuenir. 1968, o ano que não terminou- a aventura de uma geração. Editora Nova Fronteira, 8ª edição, 1989, PP. 5-314.
